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Os problemas do carro elétrico

Elétricos existem há quase dois séculos. O que trava a transição hoje é a matriz energética, o cobalto e o lítio.

Equipe UB · · 11 min de leitura

O petróleo responde por grande parte das emissões de CO2, e por isso os carros elétricos são vistos como um caminho para reduzir o impacto ecológico. O que pouca gente sabe é que eles são tão antigos quanto os próprios veículos a motor.

Em 1828, o padre húngaro Ányos Jedlik projetou e construiu um pequeno motor elétrico e depois o acoplou a uma miniatura para testes. Décadas mais tarde, em 1859, o francês Gaston Planté criou a primeira bateria recarregável da história. O primeiro veículo elétrico a levar um passageiro foi criado por outro francês, Gustave Trouvé, em 1881. Registros apontam que o inglês Thomas Parker construiu, em 1884, seu próprio elétrico, que usava para ir ao trabalho todos os dias. E o mais famoso de todos, o Flocken Elektrowagen, foi criado em 1888 pelo empresário alemão Andreas Flocken.

A virada veio em 1912, mesmo ano do naufrágio do Titanic, quando Charles Kettering desenvolveu o motor de arranque: um pequeno motor elétrico que aciona o motor a gasolina e substituiu a manivela. Foi a vantagem que faltava para os carros a combustão. Em 1908 já havia chegado ao mercado o Ford Modelo T, que ajudou a consolidar a gasolina como padrão ao vender mais de 15 milhões de unidades até 1927 e a representar metade de todos os carros vendidos no mundo em 1920.

Além da ascensão da Ford, os anos 1920 viram o Texas se tornar um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o que barateou diretamente a gasolina. As terras ricas em óleo pertenciam à tribo Osage, que enriqueceu em meio a uma história de violência e traição, episódio que inspirou um filme de Martin Scorsese.

Crise do petróleo e NASA. A crise iniciada em 1973 elevou subitamente o preço da gasolina na América do Norte e em partes da Europa e da Ásia. Motores a gasolina, principalmente os V8, passaram a ser menos usados pelo baixo rendimento por litro. A crise impulsionou os elétricos como alternativa viável. Um exemplo marcante foi o primeiro veículo lunar, o LRV, levado pela missão Apollo 15 em 1971, que usava motor elétrico e provou sua eficiência em condições extremas.

Elétricos e poluição. A geração de energia é o setor que mais polui, pela ampla queima de combustíveis fósseis, e responde por 25% das emissões, segundo a ONU. Por isso, espetar um carro na tomada nos Estados Unidos, na Europa ou na Ásia ainda contribui para a queima de petróleo, carvão, gás ou linhito.

Mudar a dinâmica de geração de energia não é tarefa simples. A economia mundial está adaptada ao óleo há mais de um século. A guerra entre Rússia e Ucrânia fez o preço da energia subir na União Europeia: só no primeiro semestre de 2024 a alta foi de 15%. Uma publicação do Conselho da União Europeia mostrou que os preços já vinham afetados desde a pandemia, quando a demanda voltou rapidamente após as vacinas e a produção de petróleo, gás e carvão não deu conta. Em 2022, uma onda de calor colocou o setor à prova: de um lado, mais consumo por ar-condicionado; de outro, a falta de água reduzindo a geração das hidrelétricas.

Um artigo da Universidade Cornell aponta que a recarga de vários carros elétricos ao mesmo tempo pode sobrecarregar a estrutura e desestabilizar a transmissão de energia. Segundo a projeção, se 10% dos carros de Portugal fossem elétricos, quedas de tensão seriam constantes. Com o tempo, os países vão adaptar suas matrizes, mas a recarga segue atrelada à queima de combustíveis fósseis.

Cobalto e trabalho análogo à escravidão. Para que a indústria de elétricos possa ser considerada limpa, vários problemas precisam ser resolvidos. O primeiro e mais cruel é a mão de obra análoga à escravidão empregada nas minas rudimentares de cobalto da República Democrática do Congo. Trabalhando por um a dois dólares por dia, de crianças aos mais velhos, milhões de pessoas carregam sacos de aproximadamente 20 quilos de terra rica em cobalto por horas a fio, todos os dias, recebendo apenas o suficiente para a própria subsistência.

Grandes corporações de tecnologia e montadoras já foram apontadas como participantes conscientes desse processo e chegaram a responder judicialmente. A Alemanha adotou a Lei de Due Diligence da Cadeia de Abastecimento, em vigor desde 2023, que exige que empresas com mais de mil funcionários garantam o respeito aos direitos humanos em sua cadeia de matéria-prima. Empresas menores, que fornecem para as maiores, acabam sendo impactadas também.

Água e extração de lítio. A extração do lítio exige uma quantidade enorme de água. As maiores concentrações estão no Triângulo do Lítio, região dos salares andinos entre Argentina, Bolívia e Chile, e só o Chile representa um quarto da produção mundial. O lítio está na forma de sal, diluído em águas subterrâneas: para extraí-lo é preciso bombear a salmoura para piscinas de evaporação. São necessários cerca de 2 milhões de litros de água por tonelada de lítio, o suficiente para produzir aproximadamente 80 veículos elétricos. Retirar tanta água do subsolo desvia o fluxo natural e provoca a morte de vegetação e animais, num habitat que já é naturalmente seco.

Os dados parecem desanimar o futuro movido a eletricidade, mas a União Europeia tem estimulado a reciclagem de baterias, tanto para reduzir emissões quanto para não depender do mercado chinês desses componentes. Volkswagen, Mercedes-Benz e a fabricante sueca Northvolt investem em tornar a reciclagem economicamente interessante. Em 2021, a sueca conseguiu produzir uma bateria 100% reciclada e planeja atingir 300 mil toneladas do tipo até 2030, provando que é viável.

Na matriz energética, a União Europeia tem meta de 75% de energia renovável até 2050, e a Grã-Bretanha é ainda mais ambiciosa, mirando 87% até 2030. O Acordo Verde Europeu, de 2019, é visto como ambicioso, mas possível. A reestruturação da matriz somada à reciclagem de baterias pode ser o caminho para a adoção em larga escala dos elétricos.

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